Quase Cinema – De Muybridge À Rosebud

Curadoria | Marisa Aragão
Estação NetRIO
Botafogo – Rio de Janeiro – RJ
2022

 

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QUASE CINEMA – De Muybridge à Rosebud

A arte de Lígia Teixeira na série QUASE CINEMA, vem fazer o link de referência direta com o fotógrafo Edweard Muybridge em sua captação de imagens em movimento. O tema escolhido pela artista, com essa sequência inédita, desenvolvida há alguns anos, evoca o próprio espaço cinematográfico, local da exposição, e suas vivências.

Precursor do cinematógrafo, Muybridge inspirou uma infinidade de artistas tais como Francis Bacon e David Hockney, entre outros.  Ao contrário desses artistas, que, seja na fatura expressionista do primeiro ou na pop de Hockney, souberam impregnar suas imagens de subjetividade, à Lígia, tal como o mestre fotógrafo, apenas interessa o que há de movimento e anatomia desses corpos, máquinas dançantes para o usufruto do seu traço e de sua paleta.

Em pequenas telas, dispostas em sequência tal como fotogramas pintados, nesta exposição, Lígia, em pinceladas precisas e economia de traços, apresenta suas figuras, que, descontextualizadas e desprovidas de singularidade, nos instiga e nos faz assimilar sua pintura como objeto pronto a dialogar sobriamente com os tempos distópicos da contemporaneidade. A marca de seu trabalho, em diversos formatos e tamanhos, é a figura humana e suas correlações, onde podemos observar a densidade e a profundidade de um olhar atento aos contextos e vivências que nos atravessam.

O início de sua formação estética, ela própria descreve singularmente como o momento em que sua mãe a leva ao cinema para assistir nada menos que Cidadão Kane de Orson Welles, o que, aos seus onze anos de idade, impacta a forma de olhar o mundo à sua volta e cria definitivamente um marco que determina a dramaticidade de sua expressão como artista visual. A partir desse divisor de águas, Lígia determina-se ao mundo das artes. Daí a referência à Rosebud, objeto emblemático presente no filme, como metáfora dos tempos felizes da infância que desencadeiam sua poética particular. Ao apresentá-la ao cinema, sua mãe estimula sua atenção e forja uma curiosidade que Lígia desenvolve e nos transmite em suas obras.

A arte de Lígia Teixeira, é fruto de um trabalho constante, dedicado e delicado, e tal como a Rosebud (de Cidadão Kane ) do subtítulo, é também evocação de memórias afetivas como aquela ida ao cinema da infância que tanto a marcou. Seja na figura da mãe ou da mulher, o feminino é protagonista em sua obra, aqui representado literalmente nas figuras pintadas extraídas das fotos de Muybridge , ou metaforicamente através da visceralidade dos vermelhos presentes em Carne Crua em que um Brasil e um manequim – Zona de Conflito – são apresentados em ganchos como carnes em açougue. Sua arte é libertária, e sua livre expressão representa aquilo que nos sensibiliza e aflige, captando de forma direta o que nos toca, no âmago das fronteiras que ultrapassa com sua visão, particular e recíproca. Alguns trabalhos aqui expostos são exemplos de diferentes fases de sua trajetória, na intenção de dimensionar e atualizar sua versatilidade, aqui homenageando o cinema que no The End daquele dia, aos onze anos de idade, com olhar de assombro, para sempre ficou gravado, reverberando, Rosebud, Rosebud, Rosebud…

Marisa Aragão