Carne Crua

Curadoria | Sonia Salcedo del Castillo
Estúdio Dezenove | Vitrine pandêmica
Concepção | Adolfo Montejo Navas
Rio de Janeiro – RJ – Brasil
2022

 

 

 

 

A produção artística de Ligia Teixeira ocorre em diversos meios e gira em torno do universo feminino e seu imaginário no coletivo social. Mas não só. Na medida em que, a artista se utiliza de referências históricas da arte, bem como de fatos da história sociopolítica mais recentes, em seu projeto poético, junto a elementos relacionados a sedução e erotismo, rastros oriundos da opressão social se presentificam em suas obras. E, feito navalha na carne, expõem as entranhas do modus operandi da sociedade violenta que, vergonhosamente, construímos sob o espírito da exclusão. Por vezes camuflados, seus trabalhos abordam a ideia de banalização humana e sua inefável objetificação. Neles, dores e delícias se mesclam. Afinal, em nossa sociedade, é inconteste certo prazer em observar, comentar e, por fim, esquecer a tragédia humana enquanto espetáculo…

As violências sofridas por mulheres exemplificam um aspecto da referida patologia social construída em séculos de história. No caso brasileiro, não há como desconcordar da afirmativa de Darcy Ribeiro em seu livro O povo brasileiro: “O Brasil é uma máquina de moer gente.”

Se na atualidade não convivemos mais com a desumanização explícita dos anos da escravidão, das mais variadas maneiras alimentamos essa máquina (geradora de bestas) ao aceitarmos sistemas vis que se nos oferecem  ̶̶  quer nas esferas prisional, ambiental, política, econômica; quer nas esferas da saúde, da educação e da cultura, enfim… ou em toda sorte de desigualdades e abusos de poder que, ao fim e ao cabo, espelham a nossa acima mencionada sociedade de exclusão. Uma tal espécie de peste que parece desejosa de atingir a todos nós (mesmo que tentemos nos enganar, pensando não fazer parte disso, nem como vítimas, nem como algozes).

Máquina moedora voraz… capaz de devorar um país, como se fosse um pedaço de carne crua, assim… feito um pernil posto de ponta-cabeça. Sim! Desse jeitinho que nos habituaram a nos expor aos olhos do mundo: tão sórdido quanto sedutor, numa vitrine. 

Em Carne crua, de Ligia Teixeira, esta é uma metáfora cirúrgica, sobretudo agora, em resultado do doloroso processo pandêmico pelo qual todos nós estamos passando. Nesta obra, de maneira fria e asséptica, jaz um pedaço continental pelo avesso… Tão viril quanto o gancho que o fere é o sangue estancado da mátria amada dependurado.

Simbolicamente, a carta de tarô que carrega esse nome (arcano XII, alcunhado de “enforcado”), anima esta reflexão em torno de seu eixo, à maneira do mecanismo de translação que, aqui, faz girar seu próprio objeto em torno de si, exibindo-o frente e verso. Entre outros significados, o referido arcano maior, além de conotar lição pública, aceitação do sacrifício ou destino, também carrega consigo o simbolismo de ideias voltadas para o futuro, de nova visão do mundo  ̶̶  o controverso dependurado carrega ainda inúmeros significados em sua referência numérica. Note-se: o número 12 se encontra na base de diferentes civilizações, em torno de vários temas, simbologias e escrituras da história da humanidade. Para os pitagóricos, nós e todas as coisas seríamos o número doze, visto que 1+2=3, que é o número do mundo dos fenômenos, enfim.

Interpolando aquelas metáforas às duas simbologias dessa digressão, Carne crua, portanto, se apresenta como uma espécie de museália, nesta Vitrine Pandêmica: objeto que se presentifica em memória para predizer.

O vídeo Ideologias, também assinado pela artista, acompanha e complementa a ideia contida nesta vitrine. Através da interface entre o filme de Chaplin, O grande ditador, e o objeto Ideologias, de Ligia, analogias e metáforas de jogos lúdicos de tirania e morte expandem a ideia de prazer e dor, ao serem exibidas como sinal de poder e, monumentalmente, relembram-nos para nos garantir o não esquecer. 

Sonia Salcedo del Castillo –  fevereiro I 2022

https://www.youtube.com/watch?v=Ek_6YEXXMfs

SOBRE A VITRINE PANDÊMICA

Quando o vírus duplo do Brasil virou pandemia, afetando milhões de pessoas, e o número de mortos superou os 500.000, a arte, como qualquer atividade digna do espírito, do gênero humano, ficou estatelada, estupefata. Quase muda. O impacto demônico ou perverso, como se sabe, também tem sua indústria, inércia, incluso colaboracionismo. O negacionismo nega até o luto. Mas no meio da assombração, a exposição que representa a doença – também política – pede outra vitrine simbólica – leia-se representação – que não a meramente midiática, circunstancial, ilustrativa, burocrática, pede responder melhor, precisamente, com outro olhar: de respeito pelo ser que somos quanto mais procura seu humanitas possível, no extremo de seus limites. E, ao mesmo tempo, tudo vem exigindo, requerendo uma mirada de altura crítica, que ofereça uma imagética ético-estética para as circunstâncias: inferir outra lógica visual e perceptiva das coisas, menos ligada à narrativa da morte, à imposição de thánatos. Diante dos tempos de tirania iníqua, se precisam mais declarações e práticas de vida, reinaugurações. Fora do cerco cego, embestado, da história obrigatória, a ideia desta Vitrine Efêmera Pandêmica ressurge em sintonia, traz algo oportuno, uma iminência artística consequente, novas experiências/formas que ajudam a redimensionar o real, sempre em crise de legitimidade verdadeira. As novas propostas visuais desta Vitrine Efêmera Pandêmica só podem ser urgentes, e apesar de lidar com o lógico confinamento (aliás, quem mais proclama liberdade de contágio nunca foi amigo da liberdade de expressão, por exemplo), elas são ainda mais necessárias, porque em seu dever espiritual, desconfinam; e, paradoxalmente, nos enraízam, propugnando outro habitat mais amplo e profundo, longe da proclamada e falsária domesticação do mundo.

Adolfo Montejo Navas

[junho/2021]

APENAS A MATÉRIA NUA ERA TÃO CRUA.
Falo aqui da posição de desconforto, até pela primeira palavra.
A exposição de uma instalação de arte produzida por uma mulher e curada por outra
não deveria ouvir soar uma voz masculina. Mas, como fui convidado pela gentileza da
artista Lígia Teixeira, pela anuência da curadora Sonia Salcedo, e por Julio Castro,
idealizador do projeto Vitrine Pandêmica junto com Adolfo Montejo Navas, vou tentar
dar conta do convite.

A exposição Carne Crua, curiosamente, começa com uma bela contradição em seus
termos: crua e curada – isto é, ou bem é uma qualidade da matéria, ou bem é outra. O
fato é que no meio dessa contradição, ambas, artista e curadora saem-se muito bem –
mais um motivo para ignorar a minha fala, o que falo.

Gostaria de dar uma pequena explicação: desde adolescente nos anos 60 – e talvez por
causa da época ou talvez por ter vindo do Amazonas – sempre me senti latino
americano. Assim, minha paixão era pelo mapa da América Latina, nunca pelo mapa do
Brasil. Daí minha estranheza à forma escolhida pela artista. O fato é que ela escolheu e
é isso que temos pela frente.

Destaco aqui que o mapa estar de cabeça para baixo, faz referência a Torres Garcia,
que inverte o mapa da América do Sul, e a um outro mapa do nosso planeta: a Terra
vista do espaço não tem sul nem norte.

Mas, além disso, de que fala a artista? Um país composto de corpos descarnados,
como se fosse um imenso pedaço de carne crua, pendurada pelo gancho do
açougueiro.

Temos um genocida açougueiro no poder que descarna os corpos dos brasileiros e é
disso que a obra fala.

Corpos encarnados (cor), em carne viva, estão descarnados como a dizer que debaixo
da pele que nos cobre estamos encarnados uns nos outros.
Mas também fala da punição a mulheres inteligentes, como nas regiões conquistadas
do antigo Império Romano, onde a filósofa e matemática Hipátia de Alexandria foi
descarnada viva com ostras, por fanáticos religiosos. Uma das versões sobre essa
morte, acusa o silêncio do prefeito de Alexandria, um militar romano que não queria
criar polêmica com a liderança religiosa mais fanática.

Em parte, a posição de Orestes é atribuída a alianças políticas.
Sócrates Escolástico menciona Hipátia como sendo uma das mais
importantes aliadas. Ele diz que os homens “da população cristã”
começam a espalhar o boato difamador de que Hipátia é o “leão
no caminho” da reconciliação entre o bispo e o prefeito. Hipátia
defende um governo civil secular e que preze pelo diálogo, ao
invés da violência. Ela compartilha com Orestes a ideia de que a
autoridade do bispo não deve se estender a setores da
administração municipal. (…)

Em última análise, Hipátia foi uma vítima de um crime político
que nunca pôde ser investigado adequadamente. A reconstrução
de sua vida, com base nos fragmentos originais, é parte da luta
de responsabilizar os verdadeiros culpados.1

Gayatri Spivak narra a história de uma mulher rica que, ao ficar viúva, deveria ser
queimada viva junto com o corpo do falecido marido. Isso, porque uma mulher
na Índia da época não deveria ter condições econômicas de sobrevivência e
deveria morrer junto. A viúva apelou a um juiz, argumentando que ela era rica e
não precisava dos bens do marido para subsistir. O caso estabelece um padrão à
parte para a questão econômica conforme demonstrado por Marx, de que, em
última instância tudo é econômico – aqui, a última instância é a punição da
mulher. O caso encontra-se narrado no livro “Pode o subalterno falar?”.2
A obra Carne Crua também possui um parentesco com Manifesto Estilíngue, de
2016, em que a artista e curadora turca Ezgi Erol faz referência a uma visão
coletiva que per/forma a história. Pesquisadora em políticas da memória e
impactos transgeracionais de genocídio e assassinatos em massa nas
representações visuais em museus, ela diz que: “Ver é editar. Ver é trabalhar
(uma imagem) em progresso.”3

Assim, do que fala a obra além do que está exposto imediatamente à vista? Não
é possível ver o trabalho apenas pela metáfora imediata, é preciso debruçar o
olhar um pouco mais sobre o conjunto de obras da artista. Não pretendo aqui
relacionar uma lista de obras, sejam elas sobre colchões ou telas, ou
performando em poles, mas apenas fazer uma alusão ao que acho ser o direito
exercido por essa mulher-artista: o desejo.

Ora, o desejo pode ser apenas imaginado ou realizado, mas isso depende de
outro desejo: o desejo de realizar o desejo é um direito da voz feminina, da voz
mais frágil, da voz silenciada. Não compete a nenhum homem falar nada sobre
essa área.

Assim, aproveito isso e que esta fala é curta, para terminar citando outra mulher,
Marguerite Duras:
Vem depressa.
Não tenho mais boca, nem rosto.4

 Wilton Montenegro

 

1MELO, Amanda Soares de. As várias faces de Hipátia de Alexandria. Consultada em 09/04/2022:

https://revistaquestaodeciencia.com.br/index.php/artigo/2019/04/25/tres-faces-de-hipatia-de
alexandria
2SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar?. Editora UFMG: Belo Horizonte, 2010.
3CACERES, Imayna; MESQUITA, Sunanda; UTIKAL, Sophie, editors. Anti*colonial fantasies. Zaglossus:
Viena, 2017.
4DURAS, Marguerite. C’est tout. P. O. L.: Paris, 1995.

 

 

Depoimento Sonia Salcedo del Castillo – curadora