“Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.”
Adélia Prado
O momento pandêmico foi de grandes frustrações, perdas desnecessárias e sofrimento incalculável para aqueles que viveram a dor pelo descaso concebido para a grave situação que adviria, para a qual não faltaram avisos, alertas e assertivas da gravidade que se abateria sobre o mundo. Do deboche ao pânico até as efetivas medidas de proteção da população foi preciso o horror. Centenas de milhares de vidas perdidas todas atreladas à inépcia, ao disparate de falsas premissas, às mídias disruptivas que encontraram acolhida em mitômanos em busca dos mais absurdos vieses de confirmação. Foi preciso um lockdown a pulso, de iniciativa descolada de um poder central para que fosse refreado, minimamente, o impacto da ignorância sobre nossas vidas. Isolados, sim, mas não imobilizados. Não poucos foram os movimentos dos artistas para levar sua força a todos que dela precisavam. Música ao vivo da varanda de um prédio, projeção de vídeo em empenas cegas, poesia declamada no terraço, lives e mais lives de todos os tipos para todos os gostos: teatro, dança, cinema, shows, exposições, debates, a arte se mostrou o
grande poder curador/restaurador de nossas sanidades. A produção artística não cessou, não se entregou ao escárnio de parvos generalistas, ao contrário, se fez grandiosa, afiou os dentes e a língua, desmascarou o boçal.
Lígia Teixeira traz para o público o resultado de algo recorrente em sua trajetória sobre o universo feminino e suas representações, em especial o que está contido no imaginário coletivo sobre submissão, inferioridade ou capacidades. Hobsbawn sustenta que “toda tradição inventada, na medida do possível, utiliza a história como elemento legitimador e de coesão.” Nada mais recorrente ao pensamento que as figuras bíblicas de Adão e Eva em uma longa experiência de discriminação misógina. Lígia traz no seu estandarte pictórico evocações concernentes a essas questões e, tal como Adélia Prado escreve em suas poesias, nos apresenta a pujança da forma e o vigor do conteúdo de maneira simples e objetiva em seus variados aspectos, contudo sem se deixar levar por fórmulas simplistas ou moralistas, enxergando nos fatos ordinários a mais preciosa contemplação.
Pinturas em pequenos formatos produzidas no período de confinamento revelam mulheres solitárias, enclausuradas na maior parte das vezes, em seus ambientes domésticos. Nas palavras da artista foi o meio pelo qual ela pode exprimir sua vivência durante o isolamento, “e dar sentido àquele momento de vazio e suspensão da vida” e conclui seu expurgo dizendo que “nunca antes o ato de pintar foi tão urgente e necessário para manter a saúde psíquica e a sanidade mental durante aqueles dias de infindável solidão.” Podemos extrair de seus trabalhos um sentimento de urgência e um desejo de equilíbrio apresentado nas composições, em especial quando vagamos entre figura e fundo. Transparece certa angústia ao observarmos linhas de esboço perdidas ou ignoradas ou simplesmente absorvidas ao acaso. Mas é na cor, nas superfícies pictóricas, que encontramos seu mais caloroso embate ora burlando sistemas conhecidos de composição, ora perfeitamente ajustada às demandas de matiz, de tonalidade, de policromia. Ledo engano pensar em economia de meios seja em escala ou em fatura. “Era o que me bastava para apresentar a precariedade da existência então.”
Confinadas é testemunho de um tempo, longo tempo de sistemático silenciamento e apagamento de mulheres que não foi menos implacável durante a pandemia ou depois. Não se trata de apresentar uma mulher idealizada, ao contrário, uma pessoa como qualquer outra com seus conflitos, agravados pelas circunstâncias de um registro da história escrito por homens. No entanto, nesse tempo histórico, podemos dizer que mudanças estão ocorrendo, ainda que a resistência esteja lá, à espreita. Guardemos os versos da poeta mineira: “Quando o ano acinzenta-se em agosto e chove sobre árvores que mesmo antes das chuvas já reverdeceram, da mesma estação levantam-se nossos mortos queridos e os passarinhos que ainda vão nascer.”
Osvaldo Carvalho












































