Curadoria | Isabel Sanson Portella
Centro Cultural Justiça Federal
Rio de Janeiro – RJ
2018 – 2019
Lígia Teixeira parte de imagens do cotidiano, colhidas em jornais, revistas e na internet, para levantar questões do universo feminino na contemporaneidade. Suas obras revelam um olhar social e psicológico sobre as representações de mundo que, através da mídia, a todo o momento, invadem nossos sentidos. São dois lados de uma mesma realidade, da luta pela sobrevivência e pela conquista de um lugar de fala. Um lugar onde as mulheres possam dizer de seus anseios e questionamentos, possam falar de sua condição e posição em ambientes quase sempre machistas e opressores. Se existe um lado A, instituído, aceito, onde tudo é permitido, existe também o lado B, que precisa ser calado, ocultado e reprimido.
Lígia Teixeira expõe a dor da mulher e sua necessidade imperiosa de resistir à violência, à força brutal de uma sociedade que insiste em apagar sua presença. Camuflar a existência para sobreviver. Disfarçar toda sua essência para garantir um lugar, mesmo que à sombra. Nas telas, as imagens construídas a partir da dura realidade refletem uma leitura bastante apurada da condição feminina no século XXI. É fundamental saber o lugar de onde falam as mulheres para pensarmos as hierarquias, as questões das desigualdades, da pobreza, do racismo, do sexismo. A artista traz a mulher negra, pobre, com o filho nos braços, lutando contra a violência nas comunidades, mas também aquela, de classe média, que sofre abusos de autoridades machistas e igualmente violentas.
O trabalho emblemático dessa exposição, Lugar de Fala, chega ao expectador com toda a dor, solidão e questionamentos possíveis. A menina, suspensa em pensamentos, alheia ao entorno, sobrevive como se nada mais restasse. Mas ela é real. Pode ter cicatrizes, usar camuflagens, mas sempre terá a possibilidade de questionar procurando saídas e mudanças de rumo. Em contraposição, Ligia apresenta o mundo massificado, robotizado, puramente tecnológico. As bonecas infláveis, materiais e fantasiosas, falam de um lugar onde não existem sentimentos. Tudo é fake, artificial. Criadas para o prazer momentâneo de uma sociedade capitalista poderão ter suas vidas esvaziadas a qualquer momento.
Desconstruindo clichês a artista procura ressignificar as imagens trazendo a possibilidade de avaliar a violência diária imposta pelas representações de gênero, tanto femininas quanto masculinas. Ligia Teixeira expõe em Teu lado B é meu lado A-Lugar de Fala sua interpretação do humano. O repertório, cheio de simbolismos, fala de violência e opressão. E fala da luta das mulheres para garantir a coerência entre o lugar e a fala. Mas principalmente, e de modo bastante peculiar, envolve o espectador com a sedução de suas cores e traços que revelam toda a maturidade de sua poética.
Isabel Sanson Portella
Curadora
Conversa com a curadora Isabel Portella