Curadoria | Alexandre Murucci
Centro Cultural Correios
Rio de Janeiro – RJ
2017 – 2018
A presença do feminino é o tema onipresente na obra de Ligia Teixeira. Mesmo quando ela lança seu olhar para congelar fricções sociais ou políticas, é a figura da mulher que se coloca protagonista.
Nelas, há sempre um ato libertário, corajoso nos dias que seguem, porém natural no vocabulário da artista, que celebra nesta exposição 30 anos de trajetória. Talvez a palavra empoderamento se torne pálida diante das musas que povoam o universo da artista – donas de suas sexualidades, de seus horizontes e de seus corpos … Belas e poderosas, não pedem licença para expor suas narrativas. Sem recato.
Nesta nova instalação, Ligia dá continuidade à sua série de trabalhos usando colchões–“objets-fetiches-trouvés” – que transbordam vivências quase audíveis em texturas e manchas, que a artista otimiza em suas camouflages, e de onde surgem suas divas que flutuam no ar. Seus colchões não se apresentam, aqui, numa voltagem Pop e crua, como na obra de Emin, ou política, como nas de Kuitca ou Carpinteros. Os colchões de Ligia são territórios livres !
Ampliando uma crônica de gênero que apresentou na TRIO Bienal 2017 na Cidade das Artes, com a obra “Minha Disney” -um boudoir interativo e festivo –, Lígia agora monta um cenário mais alusivo às estruturas de poder que sempre, historicamente, oprimiram o feminino, principalmente através da negativa ao prazer e ao não domínio do próprio corpo. Neste trabalho, num palco que centraliza a atenção do espectador, um mastro pole-dance surge para performances que a artista promove e também para interação do público. Este contraponto fálico está na obra não como objeto de dominação, reforçando estereótipos sobre a objetificação do corpo da mulher, e, sim, como instrumento de usufruto do discurso feminino de afirmação de identidades. Ali, a ousadia é um instrumento político de pertencimento e o movimento dos corpos, uma caligrafia de autoralidade.
Em sua configuração ”ecclesiasticiaedificii”, onde dispõe seus colchões, ora passarela, ora claustro, a artista sintetiza sua crítica aos mecanismos da culpa que ao longo dos séculos serviram de cerceamento para a expressão das mulheres.
Neste espaço de liberdade, Ligia dá vida às suas personagens numa fatura quase realista, que mistura voltagens temáticas várias, porém, de traços econômicos e pinceladas precisas, onde mostra sua mestria na pintura figurativa e uma elegância
de composição, que, mesmo no universo transgressor que apresenta, nos permitem o exercício da alteridade na absorção dessas personas eróticas como um natural registro histórico de uma era #elenão#metoo.
Sua destreza na tela/colchão nos faz assimilar sua pintura de forma quase clássica, como objeto do establishment pictórico, pronto para discursar sobriamente na sala de estar burguesa e atônita, que se encapsulou em tempos outros, talvez distópicos.
De suas paredes-colchões surgem figuras femininas que dominam o espaço de forma plena, sedutoras em discurso e ação! Dançarinas divas de suas próprias existências. Como afrescos pós-revolucionários.
Alexandre Murucci
Curador
Conversa com a curadora Isabel Portella